Um programa diferente Boa tarde, Cinderelas!

Texto especial do mês, por Isabella Alvin

5 de Outubro de 2009 às 08:24 Fernanda  | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 205

“Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura…”

Fernando Pessoa

Mês de aniversário sempre foi para mim um paradoxo: bom demais ter um dia só meu, celebrar, ser paparicada Por outro lado, a constatação de que o tempo não pára, passa voando . A reflexão do que tenho feito da vida, como tenho conduzido minhas escolhas bate forte… Vou confessar que o frio na barriga é inevitável!

jolene monheim - jolene monheim
Tento não dar muita atenção à razão, a tantos pensamentos, mas não consigo escapar dos sentimentos que afloram, teimosos que só, querendo holofotes e a devida atenção.
Desses não dá pra fugir e, com o passar dos anos, os questionamentos aumentam, a sacudida é maior.

O curioso é que nunca gostei de comemorar aniversário - achava que ficava meio deprê nesse período . Mas o tempo me mostrou que o sentimento era outro, se chamava introspecção O mês de setembro ia avançando e eu fechava pra balanço . Nada de grandes comemorações! Não curtia ser evidência justo num momento onde me sentia tão vulnerável, com tantos sentimentos aflorando em mim.

Mas seguimos por caminhos tortos e eis que vieram os filhos. O meu dia não podia mais existir sem bolo nem velas. Como explicar que existia aniversário sem brigadeiro?
Com o passar do tempo , o meu dia foi se incrementando e, além do bolo, velas e o infalível brigadeiro, apareceram bolas coloridas, as músicas cantadas mais vezes, a expectativa de ser lembrada, a espera pelos abraços apertados …

Sem perceber, fui resgatando todo o encantamento que não sabía mais onde encontrar. E gostei do sabor, da leveza, da espontaneidade dessa criança interior. Ela tinha mais surpresas do que imaginava, foi desvendando uma parte esquecida da minha vida … Trouxe de volta sentimentos valiosos, recordações de momentos plenos de felicidade que ficaram lá na infância .

ferenc ecseki 1 - ferenc ecseki 1
Foi tão gostoso redescobrir essa criança e te-la por perto que hoje é minha companhia pra todas as horas ou pelo menos para a maioria delas! Os meus momentos, os meus encontros, foram se tornando mais lúdicos: não só quando brinco com meus filhos( e aí ela está presente pra valer!), mas nas reuniões deliciosas com as amigas, quando aumento o som do carro pra cantar bem alto a música favorita e esquecer do trânsito e da afinação, ao reler aquele livro precioso da infância e ser invadida por uma nostalgia boa, quando falo só por falar, sem hora pra terminar, bobagens que enchem o coração e que não preciso justificar, nas gargalhadas ao relembrar momentos engraçados da vida , ao comer uma fruta com as mãos, me sujar inteira mas não abrir mão do sabor que ela tem só quando é comida dessa forma, quando prefiro sentar no chão, na sensação indescritível de pisar na grama com os pés descalços…

A vida vai passando, as responsabilidades aumentando , enfim, um longo futuro pela frente, repleto de expectativas -a maioria criadas por nós mesmos - nos aguardando, batendo com força à nossa porta . Ok, afinal Lulu Santos já cantava em rima e prosa: “Vamos viver tudo o que há pra viver, vamos nos permitir…“ O futuro vem repleto de possibilidades também e definitivamente não quero nega-lo . Mas nada me impede de cultivar um caminhar mais leve, menos engessado, sem desperdícios de vida . Quero viver o caminho com os desejos pulsando, exercitando ser quem sou e me mostrando por inteiro: a suavidade da infância, a impetuosidade da adolescência e o verdadeiro sabor das descobertas.

Ah, esse ano o meu dia foi embora com gosto de quero mais! Acho que estou ficando expert em fazer aniversário . Nada mal para quem quer viver tudo que há pra viver…

Fotos: Jolene Monhein - Ferenc Eczeki

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