Texto especial do mês, por Isabella Alvim
“ …Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?
Amar e esquecer,
Amar e malamar,
Amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vendados amar?”
Carlos Drummond de Andrade

Mas,essa semana, fui gostosamente surpreendida… Ao fazer uma curva que dá numa rua tranqüila, quase chegando, vi um coração estampado no muro de uma casa em construção. Um coração irresistível, daqueles bem gorduchos, pichado no meio do muro e seguido da frase: “Mais amor, por favor!”.
Era manhã bem cedinho e aquele baita coração pulsando no concreto… Fez conexão direta com o meu coração, que bateu mais forte, instigado por aquela imagem e pelo pedido inusitado!
Surpresa maior veio em seguida, quando continuei pela mesma rua e, alguns metros adiante, me deparei com uma casa cujo muro estava coberto de corações! Não havia um espaço em branco e era uma profusão de corações de diferentes tamanhos e cores, todos igualmente irresistíveis como o primeiro que vi no início da rua, colorindo lindamente aquele muro e a minha visão! Não sei qual a motivação nem a intenção de quem desenhou os corações e escreveu a frase, mas suspeito que tenha sido a melhor possível. Delícia essa estória de pedir mais amor! Tudo isso numa época do ano em que repensamos nossas vidas com mais intensidade, onde as relações ganham mais cores e talvez um pouco mais da nossa atenção. Olhamos para o outro, maravilha! Mas como conseguir enxergar o outro, amar o outro, se não cuidamos de nós mesmos, do que sentimos, de como e do quanto amamos, de quem somos?
Impossível amar o outro sem praticar o amor próprio. Não o egoísta, o amor ensimesmado. Defendo o amor pelo que possuímos de matéria prima emocional e pela nossa singularidade. A forma como faço a diferença e complemento o Todo! Sem conhecer e elaborar esse amor, não tenho o que dar…
Esquecemos de nos alimentar com a variedade que habita em nós, com as nossas possibilidades ilimitadas (Graças!) de afeto, de trocas e de sentimentos, enfim, de evolução! A conseqüência disso é a impressão (vivenciada por nós como uma certeza) de que o jardim do outro é sempre mais verde.Nos acostumamos a olhar para longe, a valorizar o que desconhecemos e que, à distância, parece tão precioso e fundamental. Subestimamos nossas qualidades e nossa capacidade para somar, para transformar. Pra quê buscar tão longe, perder tempo com o inatingível, se já possuímos o essencial?
” Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”, Saint- Exupéry dizia com uma lucidez invejável há vários anos. Lucidez que, pelo visto, não assimilamos…
Há até um constrangimento quando perguntamos a alguém quais são suas qualidades. Parece que não é de “bom tom” enxergar o nosso lado nobre, tão acostumados que estamos em olhar apenas o que nos falta. Olhar para o que precisa melhorar, para o que precisamos conquistar é importante, mas porque não buscar alimento emocional no que temos de precioso, no que é só nosso e no tanto que podemos usufruir e compartilhar?
Um dia desses vou bater na casa dos meus vizinhos, aqueles do muro repleto de corações, para um café de fim de tarde e, quem sabe, uma conversa daquelas de alimentar a alma. Eles que, já são mesmo sem saber, meus mais novos amigos de infância…
MAIS AMOR, POR FAVOR!

Ilustrações: Andrea Pecchi - Sowards
Adicionar comentário 17 de Dezembro de 2009 às 08:07 Juliana